África, refúgio para a crise internacional

30-03-2012 - Jornal Valor Econômico
Quem precisa da África? Alguns empresários dariam uma resposta negativa a essa pergunta, pois ainda é um continente cujos países têm uma renda per capita muito baixa. Outros diriam que não vale a pena correr o risco de desenvolver negócios devido a grande instabilidade política e institucional. Mas, será que a África pode ser ignorada?

A crise financeira mundial colocou em dúvida a capacidade do capitalismo de prover um crescimento global sustentável. A previsão é que haja uma queda de crescimento nos países ricos. A dificuldade das indústrias de gerar empregos, as exorbitantes distribuições de lucros para os executivos, a alta alavancagem das instituições financeiras, os complexos produtos financeiros, a ganância, e a degradação dos recursos do planeta estão minando parte da credibilidade do sistema.

Crescimento da região subsaariana foi de 4,9% e o fluxo de capital, de aproximadamente US$ 41 bilhões em 2011

As discussões para a retomada do crescimento econômico encontram-se centradas, principalmente, nas grandes economias como Estados Unidos, França e Alemanha. Porém, não se pode descartar a possibilidade de que alternativas para a crise do capitalismo surjam através de uma nova perspectiva. Empresas brasileiras que exportam, por exemplo, para Europa terão que se ajustar ao baixo crescimento dessa região procurando novos mercados. Por que não direcionar um olhar para a África, um continente com oportunidades, que pode ser um refúgio para os problemas recentes?

Apesar do ambiente de turbulências econômicas globais, o crescimento da África subsaariana permaneceu robusto, variando de 4,8% em 2010 para 4,9% em 2011. Além disso, o fluxo de capital cresceu, no mesmo período, de US$ 35,8 bilhões para um valor aproximado de US$ 41 bilhões. Além disso, muitos países localizados nessa região ao sul do deserto de Saara têm melhorado suas políticas macroeconômicas e níveis de endividamento.

O comércio do Brasil com a África aumentou de US$ 2 bilhões em 2001 para US$ 12 bilhões em 2011, mas ainda é pequeno. A balança comercial brasileira apresentou um déficit de cerca de US$ 3,2 bilhões. Entretanto, existem boas perspectivas de crescimento do comércio, pois na África há necessidade de investimentos para se criar uma classe média que esteja apta a competir e consumir produtos como no resto do mundo.

Alguns dos problemas para entrar em mercados de baixa renda são velhos conhecidos dos empresários brasileiros. As empresas terão que enfrentar obstáculos como a falta de infraestrutura, de informação, barreiras burocráticas e insegurança jurídica. Muitos empresários poderão se encontrar num dilema ao analisarem as decisões de investimento no continente africano: será que as decisões deverão ser baseadas nos preceitos habituais de maximização de valor para o acionista e retorno sobre os investimentos?

A resposta a essa pergunta pode vir através do pai da economia moderna, Adam Smith, que na sua obra menos conhecida, "Teoria dos Sentimentos Morais", defende que a natureza humana não é composta apenas de interesses pessoais. A natureza humana inclui simpatia, empatia, amizade, amor, e o desejo de se obter o reconhecimento social. A sua abordagem ressalta que capitalismo é um sistema econômico focado mais na importância de servir do que em aspectos estritamente comerciais com o objetivo de acumular riqueza.

Embora o crescimento da receita e maximização de lucros sejam objetivos da maioria das empresas, os desafios atuais indicam que para haver sustentabilidade, é preciso crescer de maneira diferente. É possível inferir por meio de Adam Smith que a estratégia de entrada no mercado africano possa contemplar trabalhar com responsabilidade social, lucros iniciais mais baixos e empatia com as comunidades locais.

O pesquisador C. K. Prahalad deu uma grande contribuição ao discorrer sobre as oportunidades na base da pirâmide social, isto é, mercados com renda anual inferior a US$ 2.000. Seu trabalho aponta que, embora hajam riscos de negociar com os mais pobres, o risco não é maior do que com os de renda superior, caso sejam desenvolvidas parcerias, consórcios e investimentos em setores onde existe forte sinergia.

A expansão de negócios com a África, carente em muitos setores e rica em recursos naturais, pode ser uma excelente alternativa para a economia global e também para o Brasil, que possui forte identidade cultural com aquele continente.

Recente relatório das Nações Unidas especifica que, desde 2010, as economias em desenvolvimento absorveram perto da metade dos fluxos diretos de investimentos. Diferentemente do passado, quando o comércio global se concentrava na tríade Estados Unidos, Japão e Europa, grande parte dos fluxos de investimento tem ocorrido na direção sul-sul.

Vislumbrar a África como alternativa de negócio não significa somente exportar produtos para aquela região. Aliás, a sustentabilidade das exportações depende de investimentos diretos no exterior, pois cerca de sessenta por cento do comércio internacional é realizado "intra-companies", ou seja, de matriz para filial. A China já se antecipou e transformou a África no seu terceiro maior receptor de investimento direto externo.

Num esforço para incrementar a presença de empresas brasileiras na África, o governo brasileiro tem um papel importante a fazer: incentivar a internacionalização de pequenas e médias empresas com potencial de crescimento e fornecer assistência financeira de modo que possam vencer barreiras legais ou regulatórias de acesso a mercado.

Existe risco em fazer negócio com a África? Certamente que sim. Entretanto, o maior risco é ignorar o mercado. Com um saldo bastante favorável na balança comercial, um nível confortável de reservas em moeda estrangeira, o Brasil pode e deve desenvolver políticas para que empresas brasileiras se motivem a fazer investimentos. Dessa maneira, haverá chance de aumentar receita no longo prazo, colocar em prática a teoria dos sentimentos morais, e contribuir para a melhoria do padrão de vida das pessoas.

Marcilio R. Machado é membro do conselho de administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diretor da Famex Importadora e Exportadora Ltda e doutor em Administração de Empresas pela Nova Southeastern University.

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