A angústia da indústria

25-03-2011
Em meados do século passado, muitos economistas já falavam sobre os riscos da perda de relevância da indústria em benefício dos serviços como geradores de riqueza. A maioria dos estudos tem como alvo o número de empregos gerados ou perdidos, níveis de renda, modelos de investimento, participação dos produtos manufaturados na formação do Produto Interno Bruto (PIB) e nas exportações do país. O aumento de 14,5% nas exportações de commodities e a queda de 16% das exportações de manufaturados levantaram sérias preocupações a respeito do futuro do setor no Brasil.

Além disso, o aumento de 41,6% das importações em 2010 causa receio em alguns analistas que chegam a anunciar que a indústria nacional está diante de uma série ameaça, principalmente ante a concorrência chinesa. Nem mesmo o recorde de exportações que somaram US$ 201,9 bilhões alivia essa tensão. Nesse contexto discute-se a redução da participação dos produtos industriais no PIB brasileiro que, segundo o Banco Mundial, recuou para 26,4%, enquanto o setor de serviços ampliou sua participação para 68,5%.

O excesso de liquidez no mercado internacional, a recessão nos países desenvolvidos, os bons fundamentos e resiliência de alguns países emergentes têm atraído a atenção de investidores em busca por maiores retornos nos investimentos. Essa nova ordem, na qual países emergentes como o Brasil passa a ter um papel importante na recuperação da economia mundial, embora benéfica, gera incertezas e ansiedades. Consequentemente, grupos fazem pressão no governo para que sejam adotadas medidas protecionistas, tais como novo programa de substituição de importação, intervenção no câmbio, limitações de importações, controles de capitais, imposições de barreiras tarifárias, dentre outras.

Ao analisar processos econômicos, o pesquisador Oren Kaplan argumenta que períodos de mudanças dramáticas podem causar tensões sociais. Essas fazem com que grupos de pessoas se unam como um mecanismo de defesa de modo a diminuir a angústia e ansiedades decorrentes de dissonâncias provocadas por aspectos relacionados à globalização. Em muitos casos, tais grupos apelam para políticas nacionalistas extremadas na esperança que as mesmas tragam de volta a velha ordem que existia antes do conflito. Protecionismo, então, se torna uma resposta contra um dano potencial ou imaginário, que precisa ser mitigado em função de uma concorrência global, que pode não ser a origem do problema.

Existe preocupação com o saldo da balança comercial brasileira devido ao aumento das importações. Entretanto, o volume de importações do país é ainda muito pequeno quando comparado a outros parceiros comerciais. De acordo com dados do Banco Mundial, o Brasil se posiciona em vigésimo lugar num ranking de países importadores. A China e Estados Unidos são os maiores importadores mundiais, enquanto, países emergentes como a Índia e Rússia estão colocados, respectivamente, em 11º e 17º no ranking. Outro aspecto relevante é a corrente de comércio, ou seja, a soma das exportações e importações. A China apresentou uma corrente de comércio de US$ 2,81 trilhões, enquanto o Brasil terminou o ano de 2010 com uma corrente de US$ 383,55 bilhões.

Que não se confunda desindustrialização com a participação maior do setor de serviços na geração de riqueza

Por outro lado, a participação das exportações brasileiras em relação ao PIB é de 11%, o que corresponde a metade dos outros países membros dos Bric, Rússia, Índia e China.

Dados do Banco Mundial demonstram que a participação da indústria brasileira na formação do PIB caiu de 37,1% para cerca de 25%, no período 1971-2010. Atualmente, na Índia, a participação da indústria no PIB é de 28%, na Espanha 26%, na Itália 25%, na França 19%, na Alemanha 26% e no Japão 23%. Em todos esses países, a participação também era muito maior em 1971, pois variava entre 46% (Alemanha) a 35% (França), o que comprova a tendência mundial de queda da indústria na geração de riqueza. Tais dados indicam mudanças estruturais em diversas regiões do mundo e não um fenômeno brasileiro ou regional.

Peter F. Drucker, foi pioneiro ao discorrer sobre o paradoxo da agricultura, setor que apesar do aumento da produção empregava um número menor de pessoas. No início do século XX, a agricultura era isoladamente o setor que mais contribuía para a riqueza nacional na maioria dos países desenvolvidos. Mesmo com os ganhos de produtividade, no fim do século passado, a contribuição da agricultura nos Estados Unidos não passou de 2% do PIB. Segundo Drucker, a manufatura estaria seguindo o mesmo caminho do setor agrícola e a ameaça real aos empregos da indústria não era decorrente da competição do exterior, mas do rápido declínio da manufatura como criador de trabalho.

O cenário atual indica que é importante aceitar o desafio de aumentar as exportações de manufaturados e não depender unicamente das exportações de commodities. Para o incremento da participação da manufatura nas exportações, Cornwall sugere que a indústria invista na fabricação de produtos com alta tecnologia para os quais aspectos como competição baseada em preços, como é o caso das commodities, se torne irrelevante. O pesquisador enfatiza que o desenvolvimento de um setor eficiente de manufatura é problema de oferta e a solução envolve aumento de investimento em indústrias de crescimento futuro.

É importante não confundir desindustrialização com a maior participação do setor de serviços na geração de riqueza de um país, como está ocorrendo em várias partes do mundo. As opiniões sobre o declínio da indústria normalmente causam bastante dissenso. Para os líderes industriais, seu setor é mais importante que os demais por causa de seu papel no comércio internacional. Contudo, não parece fazer nenhum sentido que qualquer setor, seja ele, industrial, financeiro, de educação, de turismo, de medicina, de engenharia, mereça maior atenção ou proteção por parte governamental com a justificativa de que ele seja necessário ou estratégico para a sobrevivência de uma nação. Se assim fosse, muitos países não teriam sobrevivido no século XX, após redução no número de empregos e da menor participação da agricultura na sua geração de riqueza.

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