O nacionalismo se contrapõe às incertezas da globalização

22-05-2006 - Jornal Valor Econômico
As manchetes dos principais jornais do mundo têm sido ocupadas por grupos manifestando o seu descontentamento e exercendo pressão sobre o Estado. Na França, o primeiro ministro cedeu à pressão e anunciou o fim do Contrato de Primeiro Emprego, que possibilitaria uma maior flexibilidade na legislação trabalhista, uma das exigências decorrentes da globalização. Recentemente, o presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou a nacionalização das reservas de petróleo e gás natural. Através de uma medida nada amistosa, que incluiu a presença de tropas militares nas refinarias, o governo boliviano tomou para si todas as operações de petróleo, combustível e o controle de gasodutos. Os interesses brasileiros foram duramente atingidos, pois a Petrobras, que possui aproximadamente US$ 1 bilhão em investimentos naquele país, viu suas atividades ameaçadas. Parece estar ocorrendo uma onda de nacionalismo crescente não apenas no hemisfério sul, mas também em outras partes do mundo. 

Seria o ato do presidente da Bolívia uma ação relacionada à soberania e uma medida de preservação do Estado-nação? Num artigo, em 1997, Peter F. Drucker enfatizou que muitas pessoas proeminentes, como Emmanuel Kant, Karl Marx e Bertrand Russel, haviam previsto o fim do estado-nação. Apesar das previsões pessimistas, o Estado-Nação continua resistindo, inclusive aos avanços da tecnologia e da informação que facilitam, em alguns casos, a troca e a venda de ativos sem a interferência do Estado. O Estado-Nação resistiu às inúmeras mudanças do final do século XX, que implicaram em um novo desenho geográfico da Europa. Com o fim da União Soviética, alguns Estados se extinguiram, outros criados, e o Estado-nação permanece bastante resistente. Isso não implica, contudo, que sua manutenção e administração seja isenta de crises. 

A globalização apresenta algumas características merecedoras de análise para entendermos este novo nacionalismo. O pesquisador americano Syed Ahkter concluiu, através de pesquisa empírica, que a globalização econômica é bastante positiva em relação ao desenvolvimento humano. Ela proporciona uma maior integração do sistema econômico de um país com seus parceiros e aumenta o desenvolvimento humano. 

Conforme o pesquisador, quanto maior a integração de comércio e abertura com outros países, maior será a pressão na estrutura vigente no país para ser mais responsável e transparente, diminuindo assim as oportunidades para a corrupção. Por outro lado, a globalização pode provocar crises e angústias quando obriga os Estados a serem responsáveis e obedecerem a uma disciplina fiscal. Países que se sentiram pressionados e adotaram uma política de câmbio flexível provocaram incertezas das pessoas e organizações em relação ao futuro. No Brasil, como reação à volatilidade do câmbio, muitos empresários angustiados demandaram a intervenção do Estado para atender, não raro, a interesses pessoais. Ao se sentirem muitas vezes despreparados para lidar com novas restrições, líderes políticos adotam posturas nacionalistas. 
Muitas das atividades econômicas eram de responsabilidade única do Estado e, portanto, suas fontes de poder, passaram a ser de responsabilidade da sociedade civil e do mercado. O que pode ser constatado é que a globalização impõe algumas restrições de funcionamento aos Estados-Nação como talvez nunca tivesse acontecido no passado. Segundo o psicólogo clínico Rishon LeZion, o nacionalismo é um mecanismo utilizado para lidar com as angústias decorrentes da globalização. Em seu estudo, no qual utiliza os manuscritos de Freud, ele afirma que a globalização não torna o mundo mais eqüitativo e, por essa razão, cria inveja destrutiva. A globalização provoca ansiedade e angústia porque muda os estilos e hábitos já enraizados nas pessoas. Segundo o autor, o aumento do nacionalismo em muitos países é reflexo de uma inveja destrutiva daqueles que se sentem à margem da globalização e desprotegidos em função do enfraquecimento do Estado-Nação. Pessoas em ambientes de ansiedade e angústia têm uma tendência a se unir em grupos nacionalistas ou religiosos, como está acontecendo na América do Sul e também no Oriente Médio, pois acreditam que, assim, podem eliminar o inimigo externo. 

LeZion argumenta que muitos dos acontecimentos atuais estão relacionados ao objetivo de diminuir a angústia, aumentar a capacidade de controlar o próprio destino e de tentar restaurar o poder dos Estados-Nação ou atenuar as imposições decorrentes da globalização econômica. Neste cenário, contemplamos o presidente da Venezuela tentando restaurar a glória de Simon Bolívar e criar a comunidade dos povos solidários composta por Cuba, Venezuela e Bolívia. Também acompanhamos através da mídia a demanda de alguns políticos brasileiros de uma participação da sociedade no Comitê de Política Monetária do Banco Central, pois acreditam que as decisões deste órgão não podem ser apenas técnicas. 

Por mais paradoxal que seja, ao aceitarem imposições da economia global, ao invés de ficarem mais fracos, os bancos centrais, tanto na Europa, Estados Unidos como no Brasil ficaram muito mais fortes. De uma maneira oposta, políticos como Evo Morales e Hugo Chaves, que tentam impor uma nova ordem à economia global, através de discursos populistas baseados na defesa dos interesses nacionais, podem estar trilhando um caminho inverso, ou seja, o do enfraquecimento de seus próprios países. Entretanto, as mudanças rápidas que estão ocorrendo exigem que haja fortalecimento de organizações supranacionais que venham substituir a falta de organismos nacionais e que atuem em função do interesse comum. 

A não ser que os líderes mundiais reconheçam a necessidade de se trabalhar pelo bem da coletividade, por mais utópico que isso possa parecer, continuaremos a presenciar um aumento de grupos de conflito e a viver um mundo cada dia mais perigoso. 

Marcilio R. Machado é doutor em administração de empresas pela Nova Southeastern University , professor da Fucape e diretor da Famex Importadora e Exportadora Ltda. 

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